Carro
A escolha do Veículo Ideial
Há mais de um ano e meio estamos planejando nossa viagem de Volta ao Mundo. Ainda nos primeiros meses, quando as dúvidas eram superiores as certezas, fizemos contatos com algumas montadoras via e-mail para sugerir a utilização de seus carros nesta expedição. Nós até já contávamos com um não visto que naquela época nem sequer tínhamos um projeto elaborado. Não tínhamos como provar que aquela idéia da viagem poderia ser algo real! Então, estudando um pouco mais sobre nossa necessidade, optamos pela compra de um Land Rover Defender 130, levando os seguintes itens em consideração:
- Número de passageiros: 2 – Roy e Michelle;
- Intenção de morar dentro do próprio carro, “construindo” então um Motor- home;
- Probabilidade de pegar muita estrada de chão (sem asfalto) devido ao Projeto Cultural Universo de Brincadeira que estaremos desenvolvendo, o qual tem seu foco no meio rural dos países percorridos;
- Necessidade de baixo custo nos translados de navio (Argentina – Austrália; Austrália – Singapura; Singapura – Índia; Índia – Quênia; Reino Unido – Canadá). Para se baixar este custo, tivemos que projetar nosso carro para caber em um container de 20 pés;
- Facilidade na manutenção. Para isso, escolhemos um carro mundial, ou seja, é um modelo vendido no mundo todo;
- Paixão por Land Rover, sendo que esse defender será o quarto Land Rover que o Roy já teve.
Ok, carro escolhido! Mas onde posso comprá-lo? O Land Rover Defender 130 é muito difícil de ser encontrado no Brasil. Sua produção sempre era bastante limitada visto ser um carro nada barato e específico para uso utilitário. Mas por sorte e com a ajuda de alguns amigos, encontramos este Land em ótimo estado de conservação no estado de São Paulo – com apenas 16.000km. Até já demos um nome a ele: Lobo da Estrada.
Construção do Motor-Home
Sem jamais ter feito algo parecido, ainda assim decidimos que nós mesmos iríamos gerenciar a construção do Motor-Home. Nosso amigo Juliano Fröhner nos ajudou no projeto externo, e certo dia, em um papo de boteco, convencemos o latoeiro IKA (Latarias Alquini) a construí-lo. Dizemos convencer pois ele também jamais tinha feito um Motor-Home. Vejam os cuidados que tomamos para construí-lo:
- O carro precisava ser leve e muito resistente e entre as possibilidades de fibra ou chapa metálica, optamos por construir uma armação tubular (TUPER) e revesti-la com chapa metálica de alumínio com 1mm de espessura. Tudo isso foi coberto por uma pintura epóxi para dar durabilidade aos materiais. Chegamos em um peso vazio interessante de +/- 500 kg, para um carro de capacidade de carga na ordem de 1.300 kg.
- Imaginem passar 2 anos morando em um espaço de um pouco menos de 4m² (somente motor-home, sem a cabine do carro)! Ergonomia seria a palavra chave para qualquer decisão na hora de projetar. Criamos, então, um motor-home com 2,70m de altura, dentro do qual podemos ficar em pé. Porém, 2,39m é a altura do container de 20 pés, sem contar os 10 centímetros da testeira que serve como batente de sua porta. Como o carro entraria no container? Desenvolvemos então um chapéu, fixo apenas por dois parafusos e duas dobradiças de capô de Scania, o qual pode ser removido para que o carro caiba dentro do container. Esse chapéu acabou ficando extremamente útil, pois poderemos utilizá-lo como teto-solar e ajuda muito na ventilação!
- A carroceria original da Defender 130 possuía 1,75 metros de comprimento, e, devido neste tamanho não caber uma cama, acabamos construindo o motor-home com 2,10 metros de comprimento, mas tudo ainda dentro das normatizações do Inmetro.
- Uma passagem entre a cabine e o motor-home também se fez necessária, pensando, desta vez, na segurança e no conforto. Cortamos então a traseira da cabine e fizemos uma passagem com uma tira composta por 3 camadas de lona e um isolante térmico. Esta passagem necessitou ser flexível devido a cabine do carro ser independente da carroceria, trabalhando uma em relação a outra.
- Forração/ isolamento térmico e acústico. Para este fim, o qual é um dos mais importantes a serem “bem” feitos, devido aos diferentes climas e temperaturas que passaremos, utilizamos placas de Poliuretano (utilizado em câmeras frigoríficas) de 2 e 3 cm recobertos por um recouro, que deu o acabamento final.
- O interior do veículo será bastante simples, tendo uma cama de casal de 1,20 metros de largura, que quando desarmada vira uma bancada de trabalho e de refeições. Teremos armários com portas de correr e com bastantes prateleiras para a organização dos equipamentos, uma geladeira Waeco com capacidade de 50 litros e possibilidade de chegar em -18 graus (que compraremos somente na Austrália) e um fogão a gás gerado da gasolina.
- Na parte externa será fixo um toldo, onde poderemos ficar fora do carro protegidos do sol e da chuva.
- 1 tanque sobressalente de combustível de Ford Belina, com capacidade de 65L. Este tanque não terá ligação direta com o tanque principal ou com a bomba de combustível. Ele servirá como galão, porém com a vantagem de estar em um lugar baixo do carro, favorecendo assim a estabilidade.
- Abaixo do assento traseiro da Defender, o qual foi retirado, foi feito um tanque de água não potável com uma capacidade de 100 litros, utilizando tubos e conexões de PVC de 150mm. A água será bombeada por uma pequena bomba – capacidade 1,9galões/min –, para as finalidades de chuveiro e pia. Este chuveiro é portátil e fixo em qualquer parte do carro através de ventosas.
- Instalação elétrica. Foram instaladas no total 7 lâmpadas fluorescentes, uma lâmpada de navegação, um conversor de eletricidade de 12V para 110V com capacidade de 300W e uma chave geral de caminhão Mercedes para segurança, tanto em caso de roubo quanto em caso de incêndio. Devido a grande quantidade de equipamentos elétricos a serem utilizados durante a viagem, fez-se necessária mais uma bateria Deep Circle.
- As 5 janelas foram todas feitas com perfis de alumínio – visando praticidade e leveza - e são abertas por um sistema basculante.
- Quanto aos pneus do carro, utilizaremos na maioria das vezes o pneu Scorpion ATR, da Pirelli, os quais são mais indicados para asfalto e estradas de chão sem maiores dificuldades. Dois pneus Scorpion Mud, serão utilizados tanto para estepe, como para as piores estradas, de bastante barro e dificuldades.
- Para situações de estradas difíceis, teremos também duas Sand Traks, que são pranchas de aço super resistentes para colocar abaixo dos pneus atolados. Mas para que estas pranchas sejam utilizáveis, teremos que ter um High Lift Jack, que é um macaco de alta elevação, o qual também compraremos somente na Austrália.
- Nossos salva-vidas nas estradas difíceis serão dois guinchos. Um mecânico EK-35 de 12.000 libras para a frente do carro, e um pequeno e leve guincho elétrico E-5000 de 5000 libras para um socorro rápido na traseira. Todos fornecidos pela empresa EKRON de Curitiba.
Bom, são estes os detalhes mais importantes da preparação do carro, que já está nos custando em torno de R$ 20.000,00. Lembrando que vários dos itens acima nos foram doados como patrocínio. Com o carro equipado as únicas coisas necessárias são coragem, espírito aventureiro, determinação e pé na estrada.
