Cãoroneiro

16 de abril de 2016

Encontrar uma raposa do Ártico no extremo norte da Rússia era um desejo que tínhamos há muito tempo. Sonhávamos vê-la saltando de ponta na neve, na tentativa de pegar sua presa. A procuramos muito no meio daquela vastidão branca sem fim durante a nossa investida a Latitude 70…

E em nosso regresso ao sul, de repente, lá longe no meio da estrada a nossa frente, avistamos um animal que parecia ser da família dos caninos. Será a tão procurada raposa do Ártico? Ou será um lobo? Antes de nos aproximarmos, pegamos a câmera de zoom e garantimos uma foto, mesmo que de longe. Aproximamos o zoom digital da câmera e confirmamos ser um canino, mas infelizmente muito grande para ser a raposa do Ártico, mesmo que branco. Mas ainda estávamos em dúvida se era um lobo ou um cachorro. Avançamos em sua direção e o animal, instantaneamente, saiu em disparada. A sensação que tivemos é de que estava muito assustado. Correu uns 2km pela estrada fazendo pequenas paradas para olhar para trás e ver se ainda o seguíamos. Não nos pareceu ser o comportamento de um lobo, então tinha que ser um cachorro.

Mas o que fazia ali no meio daquela região inóspita, sem nenhuma casa ou ser humano por perto? Será que seu dono estava caçando na mata, ou será que o pobrezinho teria sido abandonado naquele frio de -40ºC por um dono impiedoso? Quem teria essa coragem? Diante de tantas perguntas e incertezas sobre o que aquele animal fazia ali, fomos seguindo-o e vendo se conseguíamos nos aproximar dele. Mas a estrada era péssima e o nosso progresso lento, então só depois de algum tempo o alcançamos, quando corria lentamente paralelo a estrada e no momento em que ficamos lado a lado, ele sentou como se fosse nos assistir passar. Paramos o carro e a Michelle abriu a sua porta (com a instalação do vidro duplo não conseguíamos abrir muito as janelas) para tirar mais uma foto e confirmou ser um cachorro branco com uma mancha escura em seu olho esquerdo. O Roy então saiu do carro, assobiou e para nossa surpresa ele começou a correr a toda em nossa direção. Parecia que corria ao encontro de seus melhores amigos, tamanho o seu entusiasmo. Aproximou-se abanando o rabo e “sorrindo”.

Nós carregávamos em nossa geladeira uma salsicha que não gostamos muito e que guardamos para presentear aos cachorros amigáveis que encontrávamos pelo caminho. O Roy entrou no carro para pegar um pedaço da tal salsicha, deixando a sua porta aberta e quando vimos, o cachorro simpático, como um gato, zuft!, pulou para dentro do carro por cima das pernas do Roy e sentou no banco do passageiro, a postos para partir. Que situação hilária! O chamamos para fora para presenteá-lo com a guloseima, ele saiu, mas não parecia faminto, tão pouco magro ou mal tratado. Isso nos deixou mais encucados com a sua presença ali. Só podia estar perdido. E o que fazer? Levá-lo junto? Deixá-lo ali? Oh dúvida cruel. Entramos no carro e começamos a dirigir para ver a sua reação e ele começou a correr ao nosso lado. Parecia que falava: “Hei, não me abandonem aqui nesse frio!” Aquela cena cortou nossos corações e umedeceu nossos olhos. Aos poucos o cachorro foi ficando para trás, até que o perdermos de vista. Não vê-lo mais confortou nossa consciência momentânea, mas no futuro ela iria pesar! Sim, porque nós o abandonamos.

Continuamos nossa jornada a uma velocidade inferior a 20km/h e depois de mais 2km, paramos mais uma vez, pois o amortecedor traseiro esquerdo havia quebrado novamente. Enquanto o Roy e nosso amigo Konstantin checavam a avaria a Michelle foi pega de surpresa pelo cachorro (que não desistia fácil!), que pulou para dentro do carro pela segunda vez, aproveitando um descuido do Roy que deixou a porta aberta mesmo com aquele frio. E quando o Roy voltou ao carro, percebendo que aquele acento já tinha dono, o cachorro pulou para o colo da Michelle. Ele sabia andar de carro. Parecia viajado. Seria de algum caminhoneiro? Abrimos a porta do passageiro para ver se saltava para fora, mas numa ação desesperada, deitou no colo da Mi daquele jeito que joga todo o seu peso ao chão e nos olhou, talvez pedindo: “Por favor, me levem com vocês.” Que situação!!! “Ok”, pensamos. “Ele venceu e vai de carona conosco.” Até onde? Não sabíamos.

O cachorro parecia treinado! Sentou bonitinho no colo da Michelle e respeitava todos os nossos comandos de não ir lá para trás, não mexer no lixo… Até que relaxou e deitou, arriscando até uma soneca, mas sempre com um olho na estrada. O malandro parecia conhecer o caminho e cada buraco dele. De vez em quando levantava a cabeça e dava um respirada profunda pensando: “Ainda estamos aqui!!!”

Enquanto viajávamos, pouco conversamos. Não que não tínhamos assunto, mas nossa cabeça estava a mil com a presença do cão. Ambos matutávamos o que fazer com o nosso amigo se não achássemos o seu dono. As possibilidades que levantamos foram, nessa sequencia: oferecê-lo ao nosso amigo even Vladimir, que havíamos conhecido a pouco tempo e morava logo mais ao sul de onde estávamos. Se Vladimir recusasse, ofereceríamos ele em Khandyga, depois em Yakutsk e se ninguém o quisesse, pensamos que talvez o Konstantin pudesse levá-lo para a sua casa do outro lado da Rússia. E por fim, se mesmo assim ninguém o adotasse, o levaríamos conosco. Nós conversamos sobre como faríamos nas fronteiras, com comida, no carro… E que a verdade seja dita! Precisamos confessar algo que nunca confessamos para nós mesmos: “Queríamos que a última opção fosse a primeira.” Mas nem em sonho teríamos ficado com o cachorro, pois todos se interessaram por ele. O Vladimir abriu aquele sorriso quando mostramos a sua foto e visualizou a possibilidade de ter um companheiro em seu acampamento. O Konstantin também pensava em levá-lo a sua casa e temos certeza que qualquer um que o oferecêssemos iria se apaixonar por ele na hora. Nós nunca teríamos chance… Mas se ninguém acima ficou com ele, qual foi o destino deste estimado cachorro no final dessa história?

Depois de 12km em sua companhia chegamos em uma pequena vila. Parecia mais uma parada de caminhoneiros, que ficava na entrada do rio Delenni. Seria a sua casa??? Paramos o carro, abrimos a porta e o cachorro, assim que percebeu onde estava, saltou para fora do Lobo. Nós ficamos dentro só reparando sua reação. Farejou um pouco aqui, brincou com um caminhoneiro ali, até que reconheceu algo, levantou a orelha e correu com a mesma empolgação que correu para os nossos braços, mas pelo meio de uns caminhões e casas sem olhar para trás, sem dizer um adeus. Mal sabe ele que nos deixou com os olhos em lágrimas.

Esse não era um cachorro comum. Possuía personalidade, alma. Um companheiro ideal para viajar o mundo, rsrs. Mas ficamos pensando que talvez não iria curtir viajar no calor e que se o levássemos para longe, sentiria saudades do Polo do Frio, onde era a sua casa e onde era feliz. Deus escreve certo por linhas tortas.

Já demos carona para mochileiros, amigos, povo local, mas nunca para um cachorro. Esse cachorro é tão esperto que ao invés de andar aqueles 12 km no frio, pegou carona com os primeiros gente boa que passaram em sua frente.

Esse danado mexeu conosco. Foram dias falando sobre ele, lembrando dele e com certeza vai ficar para a história. Quem sabe um dia voltamos para a Rússia para reencontra-lo! Tomara que ele lembre de nós, pois nós nunca o esqueceremos.

Ah, já tínhamos até escolhido o seu nome: Arctic, pois não encontramos a raposa do Ártico (Arctic Fox), mas conhecemos o cachorro do Ártico (Arctic Dog).

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5 comentários. Confira:

  • Linda história emocionada aqui!

    Débora Langhammer
  • Uma historia muito emotivae que tenham tantas outras como esta abs.

    italo
  • muito bom

    eurico
  • Que cachorro lindo! Acredito que tenha conquistado o coração de vocês! Abração!

    Leones M. Rudnick
  • Sensacional. Parabéns. Boa viagem.

    Joaquim Thomas

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