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Diário de Bordo 44 – Quênia

Diário de Bordo

(03/09/2008 a 28/09/2008)

Dirigindo pelas terras inóspitas do norte do Quênia, levamos três dias para cruzar com o primeiro carro, um Land Rover, e somente aí que descobrimos…

… que neste país, diferente da Etiópia, dirige-se no lado esquerdo da via (mão inglesa). O pior de tudo é que para fazer essa descoberta, deixamos o motorista do outro Land Rover indignado, quando dirigíamos frente a frente em sua pista, forçando-o a sair da estrada. Ainda pensamos: “ O que é que esse cara está fazendo no nosso lado!”

Até acontecer esse episódio foi pouco chão, mas muitas horas no volante. Pedras, pedras e mais pedras do Deserto de Chalbi fizeram nossa média horária baixar drasticamente para menos de 15km/h. Havia um vilarejo ou outro separados por centenas de quilômetros, que na média que vínhamos dirigindo, eram dias sem ver uma alma viva. Partíamos sempre de manhã cedo e ao entardecer, quando parávamos para acampar, o odômetro malmente marcava 150km a mais que o dia anterior.

Em uma parte desse trajeto, nos demos conta de que estávamos uns 20km fora da rota correta, o que correspondia a quase uma hora e meia dirigindo. Provavelmente havíamos perdido uma pequena entrada e acabamos seguindo pelo caminho errado. Voltar??? Por aquela estrada horrível, nem pensar!! Seguimos então, por mais uma hora, até que avistamos de longe um sujeito armado, que quando nos viu, saiu correndo desesperadamente para o mato. Após termos erguido bandeira branca, ele percebeu que não éramos uma ameaça, largou o rifle no chão e veio ao nosso encontro. Mesmo na língua swahili, arrancamos a informação de que este caminho também nos levaria ao nosso destino.

Nas redondezas do vilarejo de North Horr, para a nossa surpresa, o caminho estreito de pedras se abriu em um vasto deserto de areia e pudemos pegar um ventinho na cara. A alegria durou pouco, pois mais alguns quilômetros adiante tivemos que reduzir a marcha e voltar a dirigir em velocidade de tartaruga. Podemos dizer que a região norte do Quênia é mais uma experiência do que um destino. Não foram dias fáceis que passamos por lá, mas amamos cada minuto de adrenalina cruzando suas planícies desérticas, salpicadas por vulcões extintos e coloridas pelo verde das águas do Lago Turkana e pelas pessoas das tribos que habitam essas terras.

De volta a civilização, paramos por dois dias na pequena vila de Maralal e depois de nossas energias reabastecidas, seguimos sentido sul, pelo Vale Rift, conhecido como a cicatriz do continente africano. Não demorou muito e começamos a avistar os primeiros animais, ali do lado da estrada e de graça. Vimos gazelas, depois vieram as zebras, logo as girafas e, mais girafas, até que apareceram alguns elefantes e muitos outros tipos de veados e antílopes. Quanto mais animais víamos, mais queríamos ver e de tao empolgados, quase nem lembramos que iríamos cruzar a Linha do Equador. Depois de 10 meses, voltamos ao Hemisfério Sul!!!

Se ao longo da estrada principal que nos levava ao sul, vez ou outra apareciam alguns animais, no sudoeste do Quênia pudemos ver uma grande quantidade de vida selvagem. A Reserva Nacional Maasai Mara possui renome internacional e é a razão que muitos viajantes têm para visitar o Quênia. Sua paisagem é composta pela savana clássica, vista em qualquer filme e programa de natureza sobre a África.

Apesar das maiores concentrações de animais se localizarem na parte oeste da reserva, a maioria dos tours e visitantes se concentram na parte leste. Talvez era o que íamos acabar fazendo, porém por sorte, conhecemos o casal de alemães Sascha e Daniela que vêm quase todo ano visitar o Maasai Mara e eles nos deram as dicas certas do que fazer e aonde ficar.

Decidimos pernoitar três noites na reserva e nesse período pudemos ver de tudo: quase vinte leões, um leopardo, uma chita, elefantes, girafas, hipopótamos e mais de centenas de búfalos, antílopes e veados. Em nossos acampamentos, na costa do rio Mara, mesmo com fogo alto, tivemos a visita de hipopótamos (considerado o animal mas perigoso de todo o continente africano) e de uma leoa, quando ambos circularam a menos de 3 metros de nosso carro. Nós sempre brincávamos que estávamos quase 100% do tempo juntos e que o único momento que tínhamos férias um do outro é quando íamos ao banheiro. Porém, com essas visitas em nosso acampamento temos que confessar que dá medo de sair sozinho do carro a noite. O jeito é ir acompanhado para o matinho e ficar de ouvido aberto para escutar o aviso dos macacos.

Falando um pouco da vida animal… anualmente, milhares de animais selvagens juntam-se para viajar em busca de água e pastagens mais verdes, do Serengeti no norte da Tanzânia, às vastas campinas quenianas do Maasai Mara. São imensas manadas de zebras, gnus, topis e gazelas, às vezes mais de um milhão em movimento (conhecido como a “Grande Migração”), e isso atrai os grandes gatos em busca de presas fáceis. Os abutres fazem o papel da limpeza e comem o restante das carcaças, sobrando apenas os ossos para contar a história.

A Reserva Nacional Maasai Mara é palco de uma das mais extraordinárias partes desse show da natureza, pois para acessar suas pastagens, os animais precisam cruzar o rio Mara e lutar contra as fortes correntezas e contra os famintos crocodilos que habitam suas águas. A travessia ocorre conforme as condições climáticas, de pasto e, pode acontecer, que os animais atravessem o rio diversas vezes, indo e voltando.

Estávamos crentes de que veríamos a Grande Migração acontecer esse ano, mas desencantamos quando ouvíamos todos comentar que os animais não vieram do Serengeti, pois ainda não havia chovido no Maasai Mara. No entanto, nos primeiros dois dias na reserva, pegamos chuva de cair o céu e isso, além de muita lama, nos deu a oportunidade de presenciar esse, que é um dos maiores congestionamentos do mundo, só que de animais. Chegando perto do rio Mara, nos deparamos com as primeiras zebras que estavam alvoroçadas na beira do rio. Uma vez ou outra, algumas vinham para a beirada beber água e checar a situação, mas desistiam assim que percebiam a presença dos famintos croc crocs. Até que, depois de algumas horas de vai e volta, um pequeno grupo de listras resolveu cruzar e depois dele seguiram as demais zebras em uma fila única. De repente, lá no horizonte e numa entrada espetacular, surgiram os gnus correndo morro abaixo e, sem pensar, eles se jogaram dentro do rio. Que inesquecível foi ver as milhares de zebras e gnus cruzando o rio Mara, eufóricos e amedrontados devido aos gigantes crocodilos que os esperavam com paciência e sabedoria de um bom caçador. Claro que nem todos chegaram do outro lado e as cenas dos ataques dos crocodilos fizeram nossos corações baterem mais forte, mas pudemos presenciar ali a força que tem essa natureza.

Mais alguns quilômetros rodados para a nossa coleção e chegamos na capital Nairobi, que apesar de sua reputação de cidade perigosa (chamada por muitos ‘Nairobbery’, a cidade dos roubos) nos pareceu muito tranquila. Esse era o local onde poderíamos novamente encontrar estrutura para resolver nossas pendências, portanto necessitamos passar alguns dias por lá. Como entramos por uma borda muito remota, sem nenhum posto de imigração e aduana, tivemos que legalizar nossos passaportes e carro na capital. O Quênia exige de todos os veículos um seguro contra terceiros e como até então ninguém havia nos solicitado, pensamos em nem fazê-lo e seguir viagem para Mombasa, porém saindo de Nairobi fomos parados por policiais e quase levamos uma multa por não possuir seguro. Nada que um bom papo brasileiro não resolvesse… Como já era sábado a tarde, o jeito foi voltar pro camping e esperar até segunda-feira para comprar o tal seguro.

Pendências resolvidas e finalmente, depois de uma semana em um mesmo lugar, seguimos sentido ao litoral queniano. Litoral? Isso mesmo… o Quênia é famoso por seus safaris e poucas pessoas sabem que ele possui praias também. Vamos passar alguns dias a beira mar em estilo hakuna matata (no worries/ sem preocupações) para então, seguirmos viagem a Tanzânia.

 

PS – Gostaríamos de comunicar a todos que outubro será um mês especial para nossa expedição, pois estaremos participando de reportagens em duas revistas de renome nacional: Revista 4×4 e Cia. e Revista Cláudia. Não deixem de comprar!!

 

Animais interessantes que vimos no Quênia:

 

Spotted Hiena: efecientes predadores com um sistema social fascinante, onde a fêmea é maior e dominante. Um grupo pode facilmente matar animais do porte de gnus e zebras correndo numa velocidade de até 60km/h. Podem atingir cerca de 80kg.

 

Leopardo: grandes caçadores noturnos, os leopardos chegam muito próximo da sua presa antes de seu explosivo ataque final. Comem de tudo, desde insetos até zebras. São muito difíceis de se ver, passam a maior parte do tempo em arvores para onde carregam as suas caças para evitar ter que compartilha-las com leões e hienas. O macho pode chegar até 90kg.

 

Leão: os leões gastam suas noites caçando, brincando e patrulhando seu território. São temidos no natureza por caçarem em grupo, cooperativamente, desde gnus, zebras até búfalos (seus maiores alvos). As fêmeas podem atingir 180kg, enquanto que os machos chegam a 260kg de peso.

 

Chita: o mamífero terrestre mais rápido do mundo, a chita pode correr até 105km/h, porém se cansa fácil após algumas centenas de metros. Aproximam-se de suas presas (antílopes até 60kg, filhotes de gnus e zebras) até 60m, quando lançam-se em sua tremenda aceleração. 3 de 4 tentativas de caça falham. Chegam ao máximo de 65kg em um comprimento com o rabo de 2,20m.

 

Elefante: os elefantes vivem em grupos de geralmente 10 a 20 e seus filhotes, enquanto que os machos vivem sozinhos. Vivem até 100 anos comendo diariamente em torno de 250kg de vegetação. As fêmeas atingem ate 3,5 toneladas e os machos 6,5 toneladas.

 

Zebra: podendo pesar até 390kg, as robustas zebras possuem listras diferentes uma das outras, assim como as impressões digitais humanas. Seu meio social é formado por haréns, onde um macho domina 5 a 6 fêmeas por um período de ate 15 anos, mas frequentemente perdem seu posto para machos mais jovens. São muito comuns de ser ver em toda a África.

 

Eland: maior antílope africano. Ambos os sexos possuem chifres que chegam até 100cm de comprimento. O macho pode pesar até 950kg com a altura de seu ombro de até 1,80m. Grupos de até 1000 elands formam-se onde novos pastos estão crescendo.

 

Gnu: são animais herbívoros, que movem-se constantemente em busca de comida e água. Podem formar manadas de até 10.000 indivíduos. O macho pode atingir 300kg de peso.

Obrigado a Ironman Suspention pelo fornecimento de 4 novos amortecedores para nosso carro.

 

Thanks to Ironman Suspention for the supply of 4 new shock-absorbers for our car.

 

Álbum: Quênia

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