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Diário de Bordo 55 – Ucrânia

(21/05/2017 a 10/06/2017)

 

A Ucrânia é um país essencialmente agrícola. Devido a alta fertilidade de suas terras, dizem ser o celeiro da Europa. Em 2011 o país foi o terceiro maior exportador de grãos do mundo. Mas ao contrário do resto da Europa, além da agricultura mecanizada, na Ucrânia ainda se vê muita gente trabalhando na lavoura da forma antiga, com enxada, indo e vindo em carroças puxadas por cavalos.

Nós vínhamos do sul da Polônia por estradas do interior e a primeira cidade de grande porte que conhecemos na Ucrânia foi Lviv. Gostamos muito. Não é luxuosa como outras cidades europeias, até porque ficou na sombra da União Soviética por muito tempo, mas possui uma arquitetura interessante – uma mistura de barroco, neoclássico, com pitadas do estilo soviético quadrado. O bom é que com seus mais de 750 anos, mesmo que foi dominada por poloneses, austríacos, soviéticos e nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, está muito bem preservada.

Um dos fatores que nos fez gostar dessa cidade, bem como de todo o país, foi que o sol e o calor nos acompanharam. Lviv estava movimentada de pedestres, músicos de rua e mulheres vendendo flores nas calçadas. O custo de vida no país é mais barato, o que nos deu a chance de comermos em muitos restaurantes locais. Mas a maioria dos pratos nós já conhecíamos. Os russos nos falaram que a Ucrânia era a cozinha da União Soviética e isso fez com que seus pratos tradicionais fossem amplamente difundidos. Borsch, varéneke e pirozhki nós já havíamos provado em muitos outros países que pertenceram a União Soviética.

De Lviv dirigimos por estradas pequenas até o sul, que é mais montanhoso, pois planejávamos subir o cume do Hoverla, a maior montanha da Ucrânia. No caminho passamos por Yaremche, que está inserida em uma região de mata densa, montanhas e com muitos rios. É um destino cobiçado pelos ucranianos para o contato com a natureza, mas estrangeiros, como nós, quase não vimos. Um fator que freou o crescimento do turismo no país foi a tensão desencadeada pela invasão da Rússia na Crimeia, uma península situada às margens do Mar Negro, que pertencia à Ucrânia até 2014. A Ucrânia ainda contesta o seu direito sobre esse território. Alias, desde 2014, as províncias de Donetsk e Luhansk do leste da Ucrânia também estão em conflito. Similar ao que aconteceu na Criméia, grupos separatistas pró-Rússia lutam pela independência da região, com apoio e armamento russo. A mágoa dos ucranianos com os russos por isso é muito grande, tanto que, em uma loja de souvenir que conhecemos, vimos rolos de papel higiênico a venda com a fotografia do atual presidente russo estampada em cada folha destacável.

Falando em loja de souvenir, para quem gosta de fazer compras, a Ucrânia oferece muito artesanato. Os bordados, que compõe a vestimenta de homens e mulheres, são os de maior expressão. Há bordados feitos a mão e bordados feitos em máquinas; e o preço, mesmo que seja feito manualmente, é baixo. Vale a pena aproveitar. E quem pensa que essas roupas são apenas souvenirs, está enganado. São usadas no dia a dia e em festividades pelo povo local, algo bonito de se ver.

Estacionamos nosso carro na cidade de Verkhovyna. Tiramos do fundo do baú nossas mochilas, que já estavam mofadas de tanto tempo que não as utilizávamos, arrumamos as coisas e partimos para três dias de caminhada e acampamentos nas montanhas do sul da Ucrânia. Foi um passeio lindo, sobre o qual já fizemos um POST detalhado. Para vê-lo, clique nesse link: NO TOPO DA UCRANIA.

Três dias depois, cansados e com uma vontade imensa de tomarmos um banho, chegamos de carona em Verkhovyna, onde reencontramos o nosso carro. Ele ficou estacionado na pequena pousada Shum Cheremosha e quando lá chegamos, as donas, mãe e filha, nos receberam com todo carinho. No tempo que ficamos fora elas deram uma espiada em nosso website e se interessaram por nossa viagem. Bom, para encurtar a história, nós tomamos aquele tão esperado banho, ficamos para a janta (sopa com bolinhos de carne de porco, salada de repolho, pepino e tomate, queijo defumado, queijo brindza, batata cozida e carne moída com repolho a milanesa) que estava deliciosa, dormimos em nosso carro estacionado na pousada e noutro dia ainda tomamos um delicioso café da manhã (pão com salame e queijos, ricota, geleia, nata, panqueca, tudo bem caseiro). E por toda essa mordomia, as duas mulheres não queriam nos cobrar quase nada. Puxa, já era tão barato e elas ainda não queriam cobrar. Queriam ajudar em nossa viagem. Insistimos e pagamos pelo que usufruímos. Tiramos algumas fotos para registrar nosso encontro, mas o que guardamos em nossas memórias é o carisma e a hospitalidade desse povo simples e humilde. Parece que quanto menos se tem, mais se quer dar ao próximo.

A arquitetura na Ucrânia é muito diferenciada quando se trata de igrejas. São feitas de madeira, mas recobertas com chapas metálicas prensadas com desenhos em alto relevo. Quando vimos pela primeira vez, nos lembramos das casas dos ciganos na Romênia, que também utilizavam metais, deixando-as muito chamativas. No caso dessas igrejas, elas aparecem de longe, especialmente quando o sol reflete o metal, o que dá um charme todo especial. Não vimos igrejas como essas em nenhum outro lugar do mundo. Na cidade rural Kosmach, as duas igrejas, uma católica e outra ortodoxa, se destacavam do resto. A católica era recoberta com chapas metálicas prateadas e a ortodoxa com chapas amarelo e azul brilhante. Nessa cidade, também, as casas possuíam detalhes em madeira em diferentes estilos. Quase todas possuíam capelinhas e poços enfeitados em seus jardins.

A Ucrânia possui mais uma tradição mundialmente conhecida, que são as pêssankas, ou melhor, ovos pintados. Nós visitamos o Museu de Pêssankas na cidade Kolomyia e posteriormente fizemos um POST que detalha essa arte incrível de se pintar em ovos. Para ver nossas fotos de pêssankas e conhecer de onde se originou essa arte, acesse: O SIGNIFICADO DO OVO DE PASCOA. Na mesma cidade visitamos o Museu Etnográfico Hutsul, que guarda um acervo riquíssimo da arte hutsul, tradicional daquela região e orgulho nacional.

Enquanto viajávamos ao norte, víamos novamente muita agricultura e gente trabalhando no campo, principalmente porque era a época da colheita de morangos. Passamos por Kamianets-Podilskyim para visitar um castelo e quando estávamos a caminho de Kiev, a capital da Ucrânia, um fato interessante aconteceu. Paramos ao lado de uma plantação para passarmos a noite, que aparentava ser o lugar mais tranquilo do mundo para dormir, longe de tudo e de todos. Mas pela uma da manhã uma caravana de caminhões e um trator entraram por aquela ruazinha onde dormíamos e começaram os preparativos para trabalhar na lavoura. O trator era um pulverizador, um dos maiores que já vimos, e quando começou a abrir os braços metálicos que exercem a função da pulverização, de tão grande, quase bateu em nosso carro. Nós estávamos ainda meio dormindo e quando vimos aquela cena pela janela de nosso carro nos sentimos num filme de ficção científica. Aquele trator enorme, todo iluminado, parecia uma nave espacial. Assim que acordamos para a realidade, juntamos nossas coisas e caímos fora o quanto antes, pois não queríamos ficar respirando o produto químico da pulverização. Encontramos um outro lugar na beira da rodovia para dormirmos.

Kiev é a capital da Ucrânia e é uma cidade muito legal. Assim como Lviv, não possui nem estilo europeu e nem soviético. É uma das maiores e mais antigas cidades da Europa, mas descontraída como uma cidade de interior. Localiza-se nas duas margens do Rio Dnieper, o qual desce e desagua no mar Negro, próximo a península da Criméia. Nos dias que passamos lá, paramos nosso carro no estacionamento do apartamento de uma família alemã (Lutz e Beate) que conhecemos no sul da Ucrânia e dali exploramos a cidade toda a pé. Fomos inclusive assistir a uma peça de opera, já que a Ucrânia é muito cultural e musical, herança do regime soviético. Numa calçada do centro da cidade, vimos um músico de rua tocando piano. Esse não é um instrumento comumente utilizado por artistas de rua, devido ao seu tamanho, mas ali isso era possível. O destaque da arquitetura local ficou para o Mosteiro São Miguel das Cúpulas Douradas.

Para quem ainda se lembra da catástrofe de Chernobil, ela não aconteceu muito longe de Kiev. Foi a maior catástrofe ambiental de toda a história do mundo. Nós tivemos a oportunidade de visitar o museu, que conta essa história, a qual mostramos imagens e mais detalhes nesse POST, acessem: CHERNOBIL, A MAIOR CATASTROFE AMBIENTAL DO MUNDO.

Em nosso caminho pelo norte da Ucrânia sentido Bielorrússia, passamos a apenas 70 quilômetros da vila de Chernobil, a qual, hoje, é considerada como uma zona excluída, ou zona proibida. Nem fizemos paradas, pois acreditem, não é uma sensação gostosa a de passar por essas terras, que ainda hoje possuem placas indicando radioatividade.

Próximo diário: Bielorrússia e oeste da Rússia.

 

Veja mais desse trajeto nos POSTS a seguir:

 

Itinerário percorrido

Itinerário Ucrânia

Fotos

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